Celulares, roupas, produtos e… pessoas descartáveis

Post escrito originalmente em 02 de novembro de 2014.


Olá a todos! 🙂 Como estão?

Aproveitando o assunto do post anterior, quero republicar este meu artigo, que é uma continuação do assunto.

Outro dia, fuçando blogs na internet, acabei achando uma postagem bem interessante, com o título “pessoas descartáveis“. Eu já havia pensado sobre esse assunto, mas acho que nunca o abordei aqui (havia abordado, mas tinha me esquecido na época em que escrevi este). Então decidi escrever esse post, onde discorrerei sobre o quanto as coisas e pessoas são descartáveis no nosso modo de viver atual.

Pessoas Descartáveis
Imagem retirada deste site.

Vamos começar falando das coisas. Antigamente, quando os sapatos ficavam desgastados ou quando a sola começava a descolar, procurava-se o sapateiro, para consertá-lo. As roupas que, por acidente, rasgavam, iam para a costureira. A televisão, ou a máquina de lavar roupa que começassem a apresentar defeitos, iam para assistência técnica. Enfim, os objetos eram valorizados e tentava-se utilizá-los o máximo possível. Tanto que não era raro as pessoas se apegarem a algo que usaram durante anos, e ficarem tristes quando não tinha mais jeito de consertar/recuperar.

No entanto, recentemente, percebe-se que esse comportamento mudou. Se o sapato estragou, riscou ou descolou a sola, joga fora e compra outro! A roupa enroscou em algum lugar e rasgou? Joga fora! Compra outro! Reparem que quase não vemos mais sapateiros para consertar os calçados. Costureiras ainda existem, mas não acredito que seja para consertar roupas. Talvez para ajustá-las ou para encomenda de vestimentas sob medida. Quanto a televisão ou qualquer eletrodoméstico quebra, muitas vezes são descartados, comprando-se um novo.

“Não é porque sua xícara preferida lascou que ela perdeu todo o simbolismo afetivo ou o aroma doce do café da sua mãe. Vai dizer que a comida da vovó na panela que mal se aguenta no fogão não é muito melhor do que muita massa de restaurante requintado?!”
(Danielle Daian)

Se falarmos de celulares e smart phones, a coisa piora! Às vezes eles são descartados por estarem fora de moda! Novos modelos mais modernos estão sendo lançados constantemente, e muitas pessoas acompanham as novidades, desfazendo-se dos antigos. Essa tendência é bastante marcante no Japão, mas vemos bastante disso por aqui também.

Por que ficou assim? Acredito eu que isso é consequência do barateamento desses produtos (eletrodomésticos e celulares, principalmente), tornando mais viável a sua troca. Aqui no Brasil temos o parcelamento em dezenas de vezes, que também facilitam. (Não sou contra facilitar e aumentar a acessibilidade desses produtos ao povo. Pelo contrário, acho maravilhoso que mais pessoas possam comprar produtos que lhes proporcionem conforto. Estou apenas discorrendo as consequências disso).

Mas, não é só isso. Há também o incentivo ao consumismo. Afinal, vivemos no capitalismo. Precisa-se comprar tal coisa, pois está na moda, todos possuem. O “ter” dá status, é importante para as pessoas, mais do que o “ser”. E isso está implícito na mídia em geral, seja propagandas, programas, novelas, revistas… a moda em si é uma grande incentivadora.

Contudo, essa mentalidade e comportamento está sendo estendida para os relacionamentos. As pessoas também estão se tornando descartáveis! São produtos a serem aproveitados e usados. Alguns nos fazem felizes, outros nos fazem sentir bem, outros ainda nos dão prazer; tem também os que a gente não gosta, ou faz mal, então apenas descartamos! É assim!

Ao meu ver, o que contribui para que as pessoas sejam vistas de forma tão fria, são as redes sociais. Comecemos pela primeira rede social que marcou a história: o falecido orkut. No início, só adicionávamos quem conhecíamos, na vida real. Porém, com o passar do tempo, parece que iniciou-se uma competição de “quem tem mais amigos no orkut“. Qualquer um que tivesse uma foto de perfil agradável, ou com quem tivéssemos trocado um “a” nas comunidades, já eram adicionados e chamados de “amigos”. Tinha gente que precisava abrir um orkut novo, pois conseguiam atingir o limite de amigos permitidos na rede. Resumindo: quanto mais amigos, melhor. (Não estou criticando. Eu adorava o orkut, e fiz um pouco disso também, embora não me importasse com os números. Tinha muita gente que nunca conversei lá, mas, por outro lado, conheci pessoas que considero importantes até hoje!).

Aí questiono: Adianta ter um número assustador de “amigos” no orkut, se nunca trocou uma palavrinha com a maioria deles? Isso não é o mesmo que considerar essas pessoas como números? Ou meros produtos? Claro, ninguém tinha essa intenção (pelo menos, espero), mas acabava sendo isso. As amizades tornaram-se mais quantitativas do que qualitativas.

E, quando alguma dessas pessoas da rede, fizesse ou falasse qualquer coisa que desagradasse, ou se houvesse qualquer discussão ou briga, era fácil! Clica-se no botão “excluir“, e caso resolvido! O “produto” que não me oferecia mais vantagens, era descartado. E, não tinha importância, era só procurar outro nas comunidades para substituí-lo.

“Parece que as coisas perderam o brilho… O que era insubstituível virou facilmente descartável, os momentos, viraram lembranças.”
(Cazuza)

Atualmente, apesar de não haver mais essa obsessão pela quantidade de amigos nas redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, etc.), o comportamento de tratar as pessoas como objetos descartáveis não mudou, ou melhor, acho que até se agravou.

Os amigos das redes sociais são como produtos que devem nos ouvir, curtir/comentar nossas publicações e postar coisas interessantes para compartilhar. Se, por qualquer motivo, algum “amigo” incomodar, apenas joga-se fora. A autora da postagem que comente lá em cima traduz bem o que eu quero dizer.

“Mas o que tenho visto acontecer atualmente é um fenômeno que se espalha silenciosamente: pessoas tem se tornado absolutamente insensíveis. O outro é um ser descartável. O próximo não significa nada, não tem importância nenhuma. Ao menor sinal de descontentamento, ou quando a pessoa já serviu ao seu propósito, as pessoas simplesmente descartam a outra, de modo que essa lhe cause o menor aborrecimento possível, de preferência, sem ter que dar nenhuma satisfação. Os relacionamentos são superficiais, as relações, de conveniência.”
(Gisele Freitas)

São raríssimas as pessoas que têm o mínimo de consideração, e tentam entender os motivos de descontentamento. É mais fácil jogar fora e procurar outro para “usar” em seu lugar. Sim, as pessoas são consideradas substituíveis. Existem outras que podem servir de ouvido, ou para conversar sobre qualquer coisa, ou para beijar e dar prazer… Qualquer um serve, desde que satisfaça. É algo extremamente egoísta, mas que está tão encravado nas pessoas, que se tornou normal.

“Veja o divórcio. As pessoas se casam. As pessoas se divorciam. O cônjuge casa-se novamente. E então vem alguém que toma o seu lugar. Em alguns casos, ele ou ela faz o papel de pai ou mãe para os filhos. Uma hora você o vê, depois não vê mais. Parece haver este espaço – marido, pai, seja lá o que for – que pode ser preenchido por uma variedade de candidatos. Talvez não da mesma maneira, mas mesmo assim… preenchido. Qual é a mensagem para nossos filhos? Ele era seu pai. Mas ele também pode ser seu pai.”
(Jay Litvin)

Em qualquer tipo de relacionamento, não só no amoroso, é natural ocorrerem atritos, discordâncias. Afinal, cada um veio por um caminho diferente, tem valores, medos, traumas e concepções diferentes uma das outras. E é exatamente por isso que deve-se ter compreensão e respeito. O diálogo é essencial para manter a harmonia em qualquer relação. Não descartar na primeira turbulência ou desagrado, mas sim, tentar entender o que está acontecendo, o motivo de cada atitude e palavra.

Antigamente as pessoas agiam mais assim. Quando percebiam algo errado, perguntavam, preocupavam, tentavam entender, conversavam. Hoje, apenas se calam. Imaginam milhões de “achismos” e aceitam a hipótese que lhe parece mais provável como verdade. Não muito raro, pega-se bronca por essa conclusão hipotética e se afastam. Na pior das ocasiões, excluem das redes sociais e da vida.

Pessoas que foram importantes, podem repentinamente se tornarem insignificantes, quando não continuam proporcionando benefícios, ou estando tão presente quanto antes. Em outras palavras, não há mais consideração por estas. O passado é excluído junto com o indivíduo.

“Descompassos sempre existirão aqui, ali ou acolá. O que importa mesmo é o quanto de você está de fato entregue nesta parceria, e só. Caso contrário, é apenas um círculo vicioso de troca de protagonistas. Não existem relacionamentos, pessoas ou momentos perfeitos. O que existem são pessoas realmente dispostas a velejar não importa as condições do tempo. O amor é um vento poderoso. Quando a gente deixa, quando o coração tá cheinho de permissividade ele consegue ser brisa, ventania e furacão na proporção certa, só direcionar as velas que o amor faz o resto.”
(Danielle Daian)

O que percebo, é que as pessoas estão muito irritadiças, impacientes, insensíveis e incrédulas. Não se diz mais “é inocente até que se prove o contrário“. Hoje é: “é culpado até que se prove o contrário“. Não há confiança. Não há compreensão. Não há paciência para tentar entender. Não há sensibilidade para enxergar as lágrimas que gritam na alma das pessoas com quem se convive, e nem há preocupação em tentar ver.

As pessoas estão práticas… Até demais! Qualquer coisa que ameace a dar dor de cabeça, é jogada para longe o quanto antes. Qualquer arranhão no laço que une duas pessoas, já é motivo para cortá-lo e buscar um outro que não machuque. Mas existe algum laço que nunca machuque?

O maior absurdo, todavia, é quando, após o descarte, em uma ocasião posterior onde este(a) precisa do ser descartado novamente, o(a) procura como se nada tivesse acontecido, querendo “usar” mais um pouquinho.

Cada vez mais, deseja-se receber sem precisar se doar. Por isso, mais do que nunca, vale o conceito de amor incondicional: Amar sem esperar nada em troca. Claro, ao meu ver, este é o nível mais alto de amor. Jesus Cristo foi prova disso, pois ele amou incondicionalmente até quem lhe tirou a vida. Mas despertar para este amor, não é algo tão simples, porém mais do que necessário, devido ao ponto em que chegamos.

Para quem leu até aqui, quero dizer: Não somos descartáveis! Não somos substituíveis! Cada pessoa é única! Cada sorriso que recebemos é único! Podemos receber trilhões de sorrisos, mas nenhum é igual ao outro. Nenhum nos proporciona o mesmo sentimento que o outro. O mesmo vale para o amor, atos de carinho, amigos, compaixão, e todos os demais sentimentos belos.

“Somos tão insubstituíveis quanto o amor que damos. Nossa marca indelével é gravada de maneira invisível no coração dos nossos filhos e entes queridos.”
(Jay Litvin)

Então, o que deve ser feito?

Não creio que haja uma resposta única e correta. Existem vários caminhos, e cada um deve escolher o seu.

Mas, ao meu entender, o mais correto é o caminho do acreditar. Acreditar que ainda há esperanças, que ainda existem pessoas que se importam. Procurar acreditar nas pessoas, mesmo se machucando. Ter a e a força de vontade de seguir em frente, até achar o amor, as amizades e a felicidade que busca.

Sinceramente, por muitas vezes, já desisti. Há momentos em que acho melhor colocar uma máscara e fingir ser igual à maioria. Ou, que seguir em frente, “congelando” o coração, para protegê-lo, é o ideal. As decepções nos fazem pensar e agir de tal forma, às vezes. Ao ponto de querer descartar até o próprio coração.

Descartando o Coração
Imagem retirada deste site.

Porém, lá no fundinho, existe uma pequena luz, que me fala para não desistir. Que neste mundo, ainda existem pessoas que enxergam o próximo. E, que também sentem pelo caminho que o mundo está seguindo. Vendo postagens e citações, como as que mencionei durante este post, entendi que não sou o único a reparar na frieza da humanidade. Por isso, escolhi acreditar que, em algum lugar deste planeta, encontrarei o que procuro.

Desejo que, cada vez mais pessoas, enxerguem isso. E que, juntos, possamos mudar, por pouco que seja, este mundo…

Bom, por hoje é só!

E nunca se esqueçam! O maior de todos os tesouros são os seus sonhos!

Abraços!


REFERÊNCIAS:

As citações feitas durante o post são dos seguintes endereços:

~> Nós Não Somos Lixo – Uma Crônica Sobre Relacionamentos Descartáveis – de Danielle Daian
~> pessoas descartáveis – de Gisele Freitas
~> Somos descartáveis? – de Jay Litvin

 

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